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O corpo
levitava. Um naco de lua boiava na boca do oitão. O céu era um quarto. O quarto
era o céu. Divinas poesias eram recitadas entre uma nota e outra daquela santa
profanação. Teve o templo saqueado ao som de uma música jamais ouvida. Rendidos
estavam, perdidos entre nuvens de linho. Encontraram ali o caminho ditoso, a
vastidão de um prazer nunca sentido. Um gozo lauto deu um brilho incomum a sete
estrelas. Cada ósculo ofertado era motivo de uma ânsia prazerosa. Um mar de
contentamento fazia surgir um continente novo. Quando amanheceu ainda se ouvia
a canção. O sol avermelhado brotava pelas brechas das cortinas. Enconchados, insaciáveis,
não davam pausa entre um verso e outro... Havia uma energia etérea que enchia
aquele espaço. Algo nitidamente azul, rejuvenescedor. Qualquer alma incrédula acreditaria
naquele ambiente místico. A nitidez daquele colorido ofertado por aquela cena
era um fato. A flexão das luzes como uma aurora boreal nas paredes daqueles
instantes era um fenômeno inefável. A vida agora tinha uma placidez outonal que
caberia numa bela fotografia. Todas as manhãs do mundo estavam contidas naquela
manhã... A noite passada engolira todas as noites que já existiram. Agora dos
olhos dele jorravam carinhos de primavera. Agora há mel na fonte dos seios
dela. Há um rio perfumado que sai do seu ventre. Há um esplendor, há um quê
criador na voz dela agora. Quando ela ordena, o sol desaba obediente, a lua
desce, boia na boca do oitão, e tudo acontece, de novo, novamente.
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Radyr Gonçalves é escritor, autor do livro 23:21 Quase meia-noite.
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