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Aquele homem
dentro daquela enorme casca... Como uma casca de ovo. Ébrio, chamam-no “Pau-d´água”.
Preso no seu mundo frio. Acorrentado no seu mundo feio. Fora do meio, às
margens. Escrevia poesias nos muros privados, lia estrelas e sabia parte do futuro
na borra do café; não tinha fé em nada. Subia e descia a escada do tempo
procurando divisas, curvas... Nunca encontrou um norte. Aficionado por Kafka, amante
das harpas, adulador das brisas, colecionador de silêncios. Guardava seus
monstros. Estudava os signos da própria ignorância. Soube se perder no próprio
labirinto de apotegmas.
Escafandro maldito!
O homem dentro de um invólucro. Extasiado com o vazio escuro. Vida a luz de
vela. Verme rastejante numa paralela absurda. Morte certa. Vida curta. Vento assombrado
que bate na janela, todas as manhãs. Habitante de uma gaiola ilha. Profeta inapto,
poeta nulo, cantor de não cantar. O homem dentro de uma cova.
Acostumou-se
com esse universo inversivo. Fez pactos com as corujas, politizou-se com os
carcarás... Alquimista inerte. Guerreiro inerme. Operador de máquinas em
desuso.
O semeador de
insônias sem propósitos. Fica lá, velando madrugadas, salgando luas, desenhando
arrebóis, tecendo com artesania as tela dos amanhãs... Destarte, engana a turba
que passa e o observa, subindo e descendo as escadarias da torre da
ampulheta... O incrível é que ninguém percebe a casca que o reveste: a sua
triste habitação.
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Radyr Gonçalves
© 2017
Tangará/RN
Comentários
Digna de estudo.
Meu poeta preferido.
Radyr Gonçalves.
(Amo)