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O homem precisava
encontrar um lugar para morrer. Pensou em morrer em um grande campo de
girassóis. Ele amava os girassóis. Sonhava com aquilo como um religioso
fanático sonha com o dia do juízo final. Ficava com aquilo na cabeça. O campo
de girassóis. O sangue escorrendo entre as pétalas caídas. O vermelho e o
amarelo. O homem se olhava em um grande espelho e ficava encenando. Afastava
todas as nuvens com as mãos, deixava o céu limpo, azul, um azul mais fechado
que o azul do céu que cobre nossas cabeças. Dois, três tons mais fortes na
palheta de cores da sua imaginação. Seria um suicídio. Mas tinha que ser um
suicídio cheio de belezas. Imaginava uma revoada de andorinhas, um verdadeiro
Bird Ballet. Uma trilha sonora clássica, Chopin, Mozart, talvez Grieg, amava
Grieg. Um suicídio marcante. Algo que depois virasse um conto, uma prosa
recheada de dramas, dores, angústias, frustrações... Um grande poema talvez.
Roteiro para um filme, novela. Quem sabe?! No caminho para o campo de
girassóis, um corredor de lírios, muitos lírios. Transeunte algum cruzaria o
seu caminho. A via seria unicamente dele, como se ele fosse o dono do mundo
naquele instante. Estaria bem alinhado, barba feita, perfumado. Cruzaria o
grande corredor numa antiga bicicleta. Levaria no bolso um bloquinho de papel,
uma caneta de ponta fina e duas balas finas de café. Num pequeno alforje, uma
adaga afiada que seria usada no momento fatal. Ele visualiza cena por cena. Um
roteiro minucioso. Devidamente calculado. Diante do grande espelho, estala os dedos
e as imagens desaparecem como num truque de mágica letal. Sorrir ironicamente
enquanto esfrega uma mão na outra, franze o cenho, abre a gaveta de uma pequena
escrivaninha, desembainha uma linda adaga japonesa e agenda o ato fatal.
- Amanhã, às três da
tarde, no campo dos moinhos, diante da alma amarela dos girassóis.
♣
Radyr Gonçalves
© 2017
Todos os direitos reservados
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