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Ela se
automutilava. Não queria matar-se. Queria bem mais que um simples suicídio,
queria evaporar-se. Não desejava nem o inferno caótico, nem a placidez azulada do céu. Desejava
apenas não existir. Ficava olhando o sangue escorrer gota a gota, enquanto um
redemoinho de pensamentos enchia o quarto de densas cenas. O abuso sofrido nas
aulas de piano. Os olhares estranhos das meninas mais bonitas do Ballet, quando
dançava no teatro municipal. Os desencontros com o pai. A fome de viajar. A
sede de ser. A vontade de voar, voar de verdade, sem apetrechos mecânicos...
Voar como o Superman. Sair de si. Abraçar o horizonte, apalpar as nuvens.
Vencer os impulsos, descer as escadarias da mente e varrer dali aquele lixo,
tirar aquela poeira sufocante... Por nenhum instante da vida conseguiu. Nunca
conseguiu. As marcas dos cortes nas coxas eram para ela como uma pintura
abstrata de Kandinsky. As marcas nos braços continham signos, mensagens que
profetizavam o fim do seu mundo. Seus olhos assombrados assistiam as lembranças
que cortavam bem mais que as lâminas. A indesejada. A magricela boneca inútil.
A estranha moça de cabelos negros que parecia contar os passos para marcar o
tempo. Ao contrário da maioria das moças, ela não tinha um diário. Guardava
tudo na mente – Não quero que alguém leia minhas dores! Dizia olhando-se nua
diante do espelho. A sua história estava escrita nas marcas noturnas das
olheiras que destoava da tez alvíssima. Nos finos lábios secos. Nas marcas
artísticas da lâmina, que para ela era como um pincel, que pintava em seu corpo
a obra desvalida de uma mulher invisível. Ela se automutilava. Não queria
matar-se, simplesmente. Queria não existir. Numa tarde de dezembro assistiu seu
último pôr do sol. Não viu o resplendor da lua cheia banhar a noite naquele
dia. Não pretendia o suicídio. Mas a morte aconteceu. Sua história não ficou
registrada em nenhum diário. O corpo magro tombado ao lado da cama foi seu
último capítulo. Nunca pretendeu matar-se, somente sentir a dor, a dor de quem
andava morta. A amedrontada menina que se escondia atrás da porta. A acanhada.
A inútil árvore sem frutos. A flor não bela. Agora, a morta. Somente morta.
Ninguém se importa.
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MAGRICELA BONECA INÚTIL
MARCELA BRENAN GARCIA
*Marcela Brenan Garcia é um heterônimo de Radyr Gonçalves
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