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Alguns homens acordados. Muitos
homens acordados.
Pensam na liberdade pueril que
deixaram em um abril de um ano esquecido,
Pensam no estampido,
No barulho íntimo silenciado,
No flutuar sobre telhados e
observar a vida embaixo dos pés...
Pensam no laborioso tecer da
aranha e no amor da coruja pelos filhos,
Pensam nas coisas secundarias,
No leite derramado,
Na morte da bezerra, na morte dos
sonhos, na morte do si, na morte de todas as coisas...
Todas as coisas morrerão, só
restará, por fim, a poesia...
O poeta morrerá do coração...
Bons poetas morrem do coração ou no máximo de cirrose... Eu morrerei de tosse,
asma, ou coisa que o valha, pois nunca serei um poeta por completo...
Mas voltando aos homens;
Os homens pensam na vida,
Avaliam os poleiros, o pomo de
Adão, a rotina das retinas que observam dia após dia as mesmas coisas,
Os homens só são verdadeiros
quando sozinhos,
Os homens só se enxergam, de
fato, no ápice da insônia...
Geralmente, a falta de sono
revela a nossa mediocridade,
A nossa descomunal pequenez,
O nosso nanismo lírico...
E choramos a morte antecipada,
E nos perdemos entre um aceno de
sombra e o sinistro cantar de um mocho...
A insônia nos arranca os trajes,
E ficamos nus,
Diante de fatos laminados,
repetitivos,
Que dilaceram as vísceras dos
nossos mais íntimos sentimentos...
Alguns homens acordados. Muitos
homens acordados.
Sinto muito.
-
Radyr Gonçalves
Copyright 2017
Todos os direitos reservados
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Sempre leio, hj li pro meu filho um poema seu. Choramos juntos.